
Bolsonaro - O inexplicável e incompreensível mito da direita brasileira
Por que Bolsonaro nunca foi solução (da direita) — e qual a saída libertária para o impasse político brasileiro
CRÍTICA SOCIAL
Muito se discute sobre o papel de Jair Bolsonaro na política brasileira contemporânea. Mas a verdade incômoda é que seu protagonismo nunca foi conquistado por mérito, qualificação ou trajetória coerente com os ideais que passou a representar. Bolsonaro foi, essencialmente, um meme levado a sério demais — uma caricatura que, diante do colapso moral e institucional do petismo, acabou alçado ao posto de salvador da pátria por uma direita desesperada por representação. Bolsonaro foi demandado por uma direita ainda inexistente e inexpressiva no Brasil, foi o que 'tinha' para o momento, alguém que resolveu aceitar a aclamação popular oriunda de uma população cansada da velha política vigente até então. Foi importante para tapar um buraco temporário, porém sua fama e relevância foi longe demais.
Sua carreira política, iniciada há mais de três décadas, foi marcada pela irrelevância: 30 anos como vereador e deputado federal sem grandes feitos, salvo pelas polêmicas toscas e pelo uso descarado do mandato para alavancar financeiramente a própria família. Colocou filhos, parentes e aliados em cargos públicos, numa clássica prática fisiológica que contradiz frontalmente qualquer discurso liberal, conservador ou meritocrático. Bolsonaro viveu — e vive — do Estado, e jamais se destacou na iniciativa privada ou no pensamento produtivo da sociedade.
Sua retórica agressiva, sua defesa de valores militares e sua resistência à esquerda o tornaram palatável para uma massa inconformada, mas nunca houve substância doutrinária ou intelectual em seu discurso. Seu conservadorismo parece mais fruto de ressentimento geracional do que de convicção moral ou estudo sério. Sua fé cristã é performática, marcada por contradições pessoais evidentes. Sua ideia de Estado é, no fundo, tão intervencionista e corporativista quanto a da esquerda que diz combater.
O ápice de sua popularidade coincidiu com um atentado que o vitimizou em 2018 e com o antipetismo generalizado. Eleito mais pela rejeição ao PT do que por mérito próprio, Bolsonaro montou inicialmente um time técnico promissor, mas sabota sua própria gestão ao privilegiar lealdade familiar e ideológica em detrimento de competência. A pandemia, que poderia tê-lo elevado a estadista, revelou seu despreparo, sua falta de visão institucional e sua total inabilidade de comunicação e articulação. Perdeu quadros valiosos, queimou capital político e, em 2022, colheu o que plantou: derrota.
Hoje, em 2025, Bolsonaro insiste em manter sua influência política sem apresentar qualquer evolução estratégica ou intelectual. Seu projeto é personalista, reativo e limitado à própria bolha ideológica. Seu discurso gira em torno de ser "contra tudo e contra todos", sem oferecer alternativa consistente. A direita brasileira, por sua vez, segue prisioneira dessa figura, incapaz de se renovar, de pensar com ousadia e de romper com a dicotomia PT x Bolsonaro que paralisou o debate público.
A verdade é dura: o Brasil se limitou a duas saídas abjetas — o projeto corrupto e totalitário da esquerda petista, e o populismo desarticulado e fracassado da direita bolsonarista. Num país com mais de 210 milhões de habitantes, muitos deles brilhantes, isso é inadmissível. E é exatamente por isso que precisamos olhar além desse falso dualismo.
A saída não está no passado militar, nem no retrocesso socialista. A saída está em resgatar a liberdade como princípio organizador da sociedade. Precisamos de profissionais sérios e capacitados do mercado que escolham dar um passo à frente e levar essa bandeira adiante. A solução para a política brasileira claramente não virá de dentro da falida massa política atual. Virá de alguém que tenha valores verdadeiros e que busque mudar o foco do protagonismo do Estado para o protagonismo individual de cada um.
É preciso reduzir drasticamente o tamanho e o alcance do Estado, que hoje concentra poder, sufoca a iniciativa privada e impede a prosperidade. Um novo projeto político deve também resgatar o espírito federativo, fortalecendo a autonomia dos estados e municípios frente à máquina centralizadora de Brasília. A descentralização do poder é essencial para que decisões mais próximas da realidade local possam ser tomadas com responsabilidade, liberdade e eficiência.
O Estado não produz nada — quem produz são as pessoas. E são elas que nos tirarão do buraco. O futuro do Brasil está - ou deveria estar - nas mãos de indivíduos livres, conscientes e responsáveis, não de burocratas, herdeiros políticos ou líderes populistas.
Enquanto continuarmos presos entre canalhas de esquerda e incompetentes de "direita", o Brasil permanecerá escravo de um jogo manipulado. É hora de virar a mesa — não para coroar um novo imperador ideológico, mas para desmontar o trono. O caminho está na construção de uma alternativa libertária, ética, produtiva e consciente. E essa responsabilidade é nossa, não de um novo salvador.
